"Dell Effect":
Como vimos anteriormente, um grupo de ações tende a possuir obliquidade positiva nos seus retornos¹, e esse efeito é ainda mais pronunciado nas ações com valor de mercado pequeno, as chamadas small caps.
A razão da existência dessa obliquidade é clara: existem algumas poucas ações com retornos muito acima da média. Pense numa OGX (~550% de apreciação nos últimos 5 anos vs ~100% do Ibov) ou Dell (cada ação valia 0,09 dólar em 1990 e hoje vale 14,13 dólares, uma apreciação de ~15.500% em 20 anos²).
Existe um estudo bem interessante de Fama & French³ que demonstra o fundo small value teórico criado por eles e a razão do excesso do retorno de tal fundo, desde 1927 até 2005:
Em média (retorno) :
74% das ações permaneceram no fundo: -0,5%
18% deixaram de ser ações de valor e 2% foram adquiridas: 4.2%
3% das ações tornaram-se grandes: 5.4%
Ações que entraram no fundo ou faliram: -0.2%
Total excesso médio anual de retorno do fundo: 9.2%
Ou seja, 3% das ações foram responsáveis por 60% do excesso dos retornos e 21% das ações foram responsáveis por todo o excesso do retorno do fundo. Está aí o efeito do "Dell Effect" no "fundo" que pretendo criar.

A mensagem, portanto, é clara. Temos que caçar as futuras ações que irão explodir, que serão a próxima Dell, sob pena de todo o esforço investindo em valor e em empresas pequenas ser em vão. Como saber de antemão quais empresas entrarão nesses 3% "mágicos"? Obviamente, ninguém sabe. A única alternativa, portanto, é simular o comportamento de um soldado americano no Iraque: atirar pra todos os lados (diversificar), na esperança de atingir um terrorista (Dell), ainda que 97% das balas atinjam civis (ações com comportamento normal do mercado). Nesse caso, o número de balas faz toda a diferença. Quanto mais ações investirmos, maior é a chance de se acertar as ações que queremos.
Terminal Wealth Dispersion:
No entanto, a quantidade de ações a se investir é bastante razoável. A escolha delas, ainda que randômica, possui efeitos decisivos no retorno futuro. Apesar de todas possuírem a mesma expectativa de retorno, o retorno realmente auferido é bem distinto, devido ao desvio-padrão elevado de um ação individual. A consequência desse fato é que os valores finais dos portfolios, ainda que com a mesma expectativa de retorno, são largamente diferentes. Não é incomum um portfolio em 20 anos crescer 350% em 20 anos e outro crescer 7.000%. Essa dispersão final dos retornos é chamado lá fora de Terminal Wealth Dispersion (TWD).
Willian J. Berstein fez uma simulação com portfolios contendo 15 ações randômicas, em proporções iguais, por 10 anos (1989-1999). Aqui o resultado com o retorno geométrico anualizado:
O retorno do S&P500 em proporções idênticas no período foi de ~24%a.a. No entanto, com apenas 15 ações, seu retorno poderia ter sido entre 12% e 50%, e a maior parte deles está abaixo de 24%. A razão é óbvia: a maior parte dos retornos foi obtida por uma quantidade pequena de ações. Observe que não estamos falando de small caps ou ações de valor: mesmo índices large cap com foco em crescimento (growth) são suscetíveis a esse efeito, ainda que de forma menos intensa. Portanto, o recado aqui fica a cada momento mais e mais claro: diversifica-se não apenas para reduzir risco, mas para assegurar a própria sobrevivência do portfolio...
Na próxima parte falarei do modelo de três fatores de Fama & French (3FF) e as suas implicações para a diversificação de um portfolio de ações.
Rumo aos R$200k!
¹ -Beedles, 1979; Schwert, 1990; Aggarwal, 1993; Alles e Kling, 1994; and Bekaert, Erb, Harvey, e Viskanta, 1998
² - Como curiosidade, a ação da Dell chegou a valer quase 60 dólares no auge da bolha .com em 2000. Quantas décadas até ela recuperar o topo (se é que um chegará lá)?
³ - Financial Analysts Journal. Vol 63, No. 3. 2007