Como vocês bem sabem, com o aumento dos meus aportes a minha necessidade de retorno do portfólio diminuiu, sendo prudente, portanto, gerar uma maior redução na variância mediante a inclusão da boa e velha renda fixa.
Numa mega ultra rápida introdução, a renda fixa nada mais é do que uma classe de investimentos cujo retorno possui suas regras definidas no momento da aplicação, sendo quase sempre a compra de uma dívida de terceiro (não raro vemos em publicações estrangeiras mencionarem a renda fixa simplesmente como debt).
De acordo com o modelo de 5 fatores de risco de Fama-French, há dois fatores de risco para a renda fixa: term/duration/interest rate risk (risco de termo/duração/taxa de juros) e default/credit risk (risco de calote/crédito).
RISCO DE TAXA DE JUROS:
O risco da taxa de juros nada mais é do que o risco que o investidor tem de, quanto maior for o prazo do título, maior é a possibilidade dele ser atingido por variações na taxa de juros e/ou inflação.
Vejamos como andam as taxas de juros no TD hoje:
Por que o investidor se satisfaz em obter 8,35% a.a. sendo que o mesmo título vencendo um ano depois paga 8,89%? Por conta do risco da taxa de juros. A mudança de 1% na taxa de juros equivale na variação de 1% por ano de duração do título. Trocando em miúdos, se a taxa cai 1% no título com vencimento em 20 anos isso significa uma valorização/desvalorização de ~20% do ativo! Não é incomum, portanto, títulos mais longos amargarem prejuízos de 5-10% num único mês, gerando muita volatilidade no portfólio.
Aí o investidor perspicaz me pergunta: Mas VR, eu tô pouco me lixando pra volatilidade pois sei que no final do período terei obtido o yield contratado no início!
O grande erro desse raciocínio chama-se inflação. Como todo investidor deveria saber, o retorno a ser obtido por um portfolio é o retorno real de um ativo, retorno esse que está sob risco em caso de aumento significativo da inflação. Apesar da taxa nominal ser determinada no momento da compra, só saberemos o retorno real ao final do período, quando então você poderá ter menos do que investiu em termos reais.
Aí você retruca: Ok VR, mas e os títulos indexados ao IPCA? A inflação pode ir na lua e eu terei meu retorno real garantido!
Como vocês deveriam saber, taxas de inflação suficientemente altas e com prazos mais curtos (poucos anos, obrigado Major!) podem tornar as NTN-Bs com retorno real negativo por conta do IR conforme discuti em um
artigo anterior. Além disso, mesmo aqueles possuidores de NTNBs continuam incorrendo num risco indireto do risco da taxa de juros que é o risco do custo de oportunidade: em caso de aumento da taxa de juros você não poderá aproveitar a taxa nova por estar travado em um título com rentabilidade inferior. Por fim, em caso de liquidação antecipada de um título o investidor tem uma chance maior de obter inclusive perdas nominais em caso de aumento da taxa.
Esse tipo de risco em particular foi recompensado em média nos EUA em ~2,5% a.a. (LT Gov - T-Bill)
RISCO DE CRÉDITO:
Como o próprio nome diz, esse é o risco que o investidor incorre pelo risco de levar o calote do pagador. Quanto mais improvável for o pagamento maior é a taxa de juros exigida pelo credor/investidor. Esse é o motivo do BNDES ter que pagar mais do que o Tesouro para se endividar e o motivo pelo qual bancos médios pagam mais que bancos grandes em taxas de CDBs/LCI/LCA.
Nos EUA esse risco praticamente não foi recompensado, com um retorno extra de 0,18% a.a. (LT Corp -LT Gov).
Quando estamos falando de renda-fixa, portanto, temos que ter claro essas duas dimensões de risco. O investidor que de forma pouco cautelosa investe em títulos de longuíssima duração (15-30 anos) sabe que está sujeito a uma volatilidade semelhante à de ações, com alto risco de perda real e bastante significativa em caso de inflação (caso não sejam atrelados a um índice inflacionário) ou aumento da taxa de juros com resgate antecipado. Da mesma forma, o investidor que compra debêntures ou CDBs em larga escala a uma taxa maior pode se ver sequer sem o principal em caso de calote do emissor da dívida.
Nos EUA o risco da taxa de juros foi porcamente recompensado com títulos com vencimento acima de 5 anos, levando grandes mestres de investimentos como Bernstein a recomendar apenas títulos curtos (1-5 anos).
Além disso, nos EUA há uma aversão da doutrina muito grande com relação aos junk bonds (dívidas podres, pense em grau máximo Grécia ou em grau menor Gafisa), alegando (não sem razão) que esses títulos possuem risco semelhante ao de ações, gerando ineficiências de ordem tributária e alocação de ativos. Há divergências, no entanto (notadamente Rick Ferri).
E no Brasil? Bem, pouco se fala de renda fixa aqui nessa terra amaldiçoada fora aqueles cálculos do tipo "Vale mais a pena fundo de investimento ou poupança?". Ridículo. Graças a nossa tributação e ao nosso sistema legal, há alguns raros "almoços grátis" a serem capturados, mas isso fica pro próximo artigo...