terça-feira, 2 de junho de 2009

Bolsa e Risco - Parte I

Desde que o mundo é mundo eu ouço que bolsa de valores possui mais risco que renda fixa. Essa informação está tão impregnada no "senso comum" que quando falava que investia na bolsa (hoje prefiro guardar essa informação pra mim) era obrigatório ouvir a frase "Cuidado, bolsa é muito arriscada". Mas até que ponto isso é verdade? Aliás, o que é risco?

Essa pergunta é mais complicada do que parece. Mesmo no meio financeiro, risco possui várias denominações. O conceito usual é estatístico, medido pelo desvio-padrão (volatilidade) do ativo. E desvio-padrão nada mais é do que a raiz quadrada da variância deste ativo:


Gráfico de desvio-padrão de um ativo com distribuição normal. Por consequência matemática, o ativo possui 95,8% de chance de ficar entre dois desvios-padrões e 99,8% de ficar entre três desvios-padrões.

Acontece que para a maioria de nós a noção de risco é assimétrica: o nosso temor de perder dinheiro é muito maior do que a vontade de ganhá-lo. As pessoas normalmente sacrificam uma parcela enorme de ganhos para garantir que não irão perder o principal. Esse simples fato explica muita coisa: a venda de uma ação logo após um pequeno lucro ("não posso perder o lucro"), a pessoa segurar uma ação após uma queda expressiva ("a ação vai voltar e vou recuperar o que perdi"), o fato de algumas pessoas investirem 100% em renda fixa ("não posso perder o principal"), etc. etc. Enfim, essa concepção assimétrica de risco levou à teoria pós-moderna do portfolio, em que risco é o "shorfall risk", em que é calculado o desvio-padrão apenas dos retornos negativos da média, ignorando a variação na alta.

A grande maioria das publicações que encontro considera risco na maneira usual, i.e. como volatilidade do ativo. Acontece que para aqueles que utilizam o investimento a longo-prazo, é muitíssimo comum encontrarmos duas falhas na concepção de risco:

  1. As análises quase sempre utilizam a volatilidade anual do investimento. Acontece que nem todos vão retirar 100% do investimento em 1 ano. E para quem fica 5 anos? 20 anos? A volatilidade com certeza será diferente...
  2. As conclusões quase sempre são baseadas em retornos nominais, desprezando a inflação do período. Para aqueles que investem a curto-prazo a inflação é quase desprezível, mas para nós que investimos no longo-prazo ela faz uma enorme diferença.
A primeira falha é muito mais grave do que a segunda. Vejamos o gráfico da fronteira eficiente "comum" entre títulos de renda fixa e bolsa de valores com volatilidade anual:



Esse gráfico simplesmente deu o pontapé inicial na teoria moderna do portfolio, desenvolvido por Markowitz em 1952. Ele mostrou na época os poderes da diversificação e a noção de porfolios eficientes, além da surpresa de que a utilização da combinação de até 20% bolsa/80% renda fixa possui MENOS risco e maior retorno do que 100% renda fixa. O problema deste gráfico é que ele utiliza os retornos e desvios-padrões anuais dos ativos.

O que acontece quando pegamos esse gráfico e utilizamos dados para períodos de 5, 10, 20 anos? Isso é assunto pro próximo tópico...

4 comentários:

  1. Guilherme Bendecti2 de junho de 2009 16:35

    muito legal seu blog. me animou ainda mais para planejar meu futuro financeiro.
    não tão arrojado quanto o seu plano mas o suficiente parame dar o descanso merecido aos 60!!! já me utlizei de várias informações dos posts passados e entro quase diariamente para acompanha-lo. sem dúvida alguma uma boa leitura garantida!
    parabéns e espero os próximos posts !

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  2. Guilherme, fico MUITO feliz em ter te ajudado! Vamo que vamo!

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  3. Belíssimo post, Independência. Alto nível, começando com o conceito e progredindo lentamente.
    Cuidado com alguns detalhes: associação renda fixa em 20% do portfolio traz pior retorno quando o yield é de quanto? Será que isso se aplica no Brasil, onde há rentabilidade de 5% a.a. líquida acima da inflação garantida (tesouro direto)?
    Não dá pra não considerar que o fato de que os mercados não são objeto clássico de ciências naturais: o padrão do passado não necessariamente irá se reproduzir (vide Japão) no futuro.
    Creio que um post interessante seria como ajudar as pessoas a medir o tanto de risco que precisam correr. Vejo muitos que precisariam de um empurrão de rentabilidade se escondendo na poupança, enquanto outros corroem muito dinheiro na bolsa, vítimas das fortes emoções que ela pode despertar, quando conseguiriam facilmente planejar um futuro financeiro confortável sem os sobressaltos da renda variável.

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  4. Ola, mais um excelente post ! Parabens ! =)
    Gostaria de contribuir tambem com esse blog que admiro muito:
    Quem quiser ler mais a respeito por favor verifique o material em Portugues no livro MERCADO FINANCEIRO de Alexandre Assaf Neto - cap 11 "Selecao de Carteiras e Teoria de Markowitz".
    Esse livro pode ser achado por ate R$15 no Estante Virtual.
    Abraco
    Alexx

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